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QUEM VAI NOTICIAR O FIM DO MUNDO? – UMA DISCUSSÃO SOBRE O FUTURO DA IMPRENSA


Palestra proferida por João Paulo Cunha no dia 25/06/2015 no auditório da Biblioteca Central da UFMG. Organização do texto, a partir da fala do palestrante, por Rubens Goyatá Campante. O jornalismo tradicional, cuja mensagem carregava certo grau de agregação em termos de análise e crítica, contribuindo, assim, para a formação de uma opinião pública plural, encontra-se em profunda crise. Este modelo, trazido basicamente do jornalismo norte-americano, em parte idealizado mas em parte efetivo, parece estar com os dias contados. O dilema do jornalismo hoje pode ser exemplificado pela forma como era encarado por dois grandes pensadores do século XIX, Hegel e Schopenhauer. Para Hegel, ler os jornais era a “prece diária” que deveria ser feita por alguém que buscasse ter consciência dos fatos e do espírito de seu tempo, percebendo neles o desenrolar da vida humana. O jornalismo era de grande valia para quem encarava, com otimismo, as mudanças e eventos históricos como algo substancial, como Hegel. Formado na oposição a Hegel, Schopenhauer, por sua vez, com sua visão de mundo pessimista, anti-racionalista e instintiva, impregnada da filosofia budista que renunciava às aparências enganosas, desprezava e opunha-se à “superficialidade” do jornalismo, que estimularia a trivialidade. Ambos, cada um à sua maneira, possuem certa dose de razão, e este é o dilema que o jornalismo enfrenta hoje: o de ser algo, ao mesmo tempo, importante e desimportante. Esta posição ambígua do jornalismo liga-se a várias crises que o atravessam: crise política, econômica, técnica e epistemológica. A crise política remete à perda de relevância política do jornalismo, que não detém mais a exclusividade de ser a arena, por excelência, de pluralidade, discussão e formação da opinião pública. Este modelo está fazendo água, esvaiu-se a capacidade de o jornalismo encaminhar, de forma dialógica e democrática, as diferentes subjetividades, porque a concentração de discursos convergentes barrou a pluralidade de ideias. E no Brasil, o predomínio de discursos uniformes é potencializado pela concentração hegemônico-familiar dos meios de comunicação e pelo fato de que o jornalismo sempre foi – salvo exceções – aliado ao poder. Em Minas Gerais especialmente. Tudo isso faz com que a imprensa atue sob uma estreita simbiose entre poder político e poder econômico. A consequência é a perda de relevância da comunicação pública e a incompreensão social e cultural de que a comunicação é um bem comum e um direito público - como saúde e educação, por exemplo, o são - e não uma dádiva de grupos privados. Tal incompreensão explica que instâncias públicas como as conferências e os conselhos de comunicação não sejam valorizados, ou que as concessões públicas de meios de comunicação a grupos privados sejam tratados, na prática, como posses privadas. Um exemplo típico, recente e local desta última dinâmica foi a transferência da Rádio Guarani de um grupo privado a outro, de forma onerosa. A concessão é um bem público, e como tal é passado, em caráter precário e revogável, a determinada empresa de comunicação; não é um bem privado de que esta possa dispor, vender, alugar, livremente; se o grupo, portanto, não tinha mais interesse e/ou condições de explorar a concessão, esta deveria voltar a seu domínio original, o patrimônio público. Provavelmente o grupo que “vendeu” a emissora de Rádio fê-lo por conta de dificuldades financeiras. Situação comum por que passam, atualmente, os grupos de mídia, configurando o segundo tipo de crise que assola a imprensa, a crise econômica. Antes dessa crise, havia um modelo liberal, em que, numa empresa de comunicação, o comercial e o editorial tinham condições de estabelecer uma espécie de “círculo virtuoso”: a qualidade editorial, a seriedade, isenção, credibilidade, alimentavam a saúde comercial da empresa, aumentando as vendas, os anúncios, e, sobretudo, as verbas de publicidade. Com a nova situação tecnológica, a internet e as redes sociais, houve uma quebra daquela relação íntima entre circulação e publicidade, audiência e conteúdo. Se antes quem tinha conteúdo tinha audiência, e vice-versa, hoje a audiência migrou, em boa medida, para o google, facebook, e outros – que não produzem conteúdo, pelo menos não o conteúdo jornalístico tradicional. Com isso, o jornalismo, nesses novos meios, fica a reboque, em segundo plano. As redes sociais possuem, sim, a vantagem de proporcionarem abertura a mais vozes. Mas além disso ainda não acontecer na dimensão que se prega, sendo mais promessa e potencialidade que realidade, não é propriamente jornalismo o que, na maioria das vezes, chega às redes sociais como informação. O resultado é que os grupos tradicionais de mídia têm passado a vender cada vez menos a clássica publicidade e cada vez mais “projetos de poder”. Visões e motivos ideológicos sempre permearam as empresas jornalísticas, e obviamente determinaram suas linhas editoriais, mas não se confundem com projetos de poder - estes são interesses lucrativos definidos, palpáveis, imediatos, das empresas ou, mais comumente, de grandes grupos privados, que pagam pelo apoio dos grupos de mídia. Exemplo claro, em nível local, foi o súbito e coordenado suporte de parte da mídia a um grande projeto de expansão imobiliária na capital mineira, ou, em nível nacional, o apoio a demandas e lobbies de certos interesses empresariais, nacionais e internacionais, da economia do petróleo e das empreiteiras que executam suas grandes obras. As dificuldades econômicas originaram-se, portanto, da mudança de paradigma tecnológico do jornalismo, e a partir daí surgiu a crise técnica. A passagem do impresso para o digital, e mais ainda, do digital para o móvel, trouxe consigo a errônea ideia de que o jornalismo, nesses novos meios, seria mais simples, direto, barato, sem mediação. Na verdade, o jornalismo da internet não é mais interativo e nem substancialmente mais plural que o jornalismo tradicional, e, principalmente, seu custo de produção não é mais baixo, pois seus recursos técnicos permanecem caros. Mas há uma “cultura da gratuidade” no campo da internet, e as empresas, então, tentam reduzir os custos em cima da mão-de-obra, dos profissionais, especialmente daqueles mais competentes e experientes – da qualidade do conteúdo jornalístico, enfim. E o conteúdo no novo jornalismo digital é comprometido, também, pelo esvaziamento da função da edição na elaboração do jornal. Cumprindo o papel fundamental de mediar a informação e de amarrar a inescapável multiplicidade de dados, fatos e notícias, a edição conferia sentido à produção jornalística, a qual, sem ela, torna-se mais segmentada e errática, perdendo substância em termos éticos, estéticos e de conhecimento. Este potencial de conhecimento veiculado pelo (bom) jornalismo também está na berlinda, o que acarreta a quarta crise da imprensa, a epistemológica. Jornalismo é conhecimento? A resposta a este questionamento antigo e recorrente deve ser positiva. Sim, jornalismo é um conhecimento, válido e importante, sobre o que está acontecendo na sociedade, é uma forma de se “ler” a sociedade, que possui um papel revelador, que é uma ferramenta de estímulo ao debate. O jornalismo – de qualidade, bem entendido – é, portanto, um campo de saber, cujo potencial intelectual deve ser reconhecido. Para que esse potencial se realize, contudo, para que a boa informação possa dar ao cidadão a capacidade de uma participação esclarecida na vida pública, é crucial cuidar da formação do profissional, não só em seu aspecto técnico, mas da formação geral, humanística, ética. Eis porque a crise epistemológica é também, de certa forma, uma crise pedagógica. Como essa formação, em sentido amplo, tem falhado, os jovens jornalistas, em geral, são estressados, conservadores, e por “saberem demais”, pouco curiosos. E assim uma profissão gregária, coletivista, como a de jornalista, vai-se empobrecendo no excesso de individualismo, na negação do debate, e, o pior de tudo: na autocensura, tantas vezes maior que a própria censura de chefes e patrões. A ambição do jornalista era ter importância na vida das pessoas; agora é bombar nas redes sociais. Mesmo com tantos problemas, as razões para otimismo não desapareceram. Novas experiências surgem, apostando, com sucesso, na combinação de uma linguagem popular e de qualidade da informação, sem infantilizar o público. E, no campo teórico, as próprias dificuldades da mídia e da imprensa trouxeram um aumento do interesse e das pesquisas sobre a comunicação, abrindo caminho para o fundamental: compreender que a comunicação é instrumento de aperfeiçoamento social e pessoal. Na prática ou nos estudos, a saída é recuperar o papel central da boa informação como direito de cidadania. Pois, retomando a questão que deu título à palestra, o fim do mundo não será noticiado. O fim do mundo será quando a comunicação acabar. João Paulo Cunha é jornalista, e atualmente presidente do BDMG Cultural