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Novo manual de falácias diplomáticas


Neste mês de novembro, completam-se seis meses de governo Temer no Brasil. Desde então, uma nova política externa tem sido posta em prática, sob a batuta do chanceler José Serra, veterano político paulista, de longa e bem-sucedida carreira, apesar de novato nas lides diplomáticas. Já não é sem tempo, pois, de proceder a alguma avaliação crítica sobre o período.

Em artigo veiculado pelo Instituto Teotônio Vilela (ITV), órgão pensante do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), em 26 de setembro de 2016, o diplomata e presidente da sucursal carioca do ITV, Igor Abdalla, faz corajosa defesa dos pilares da gestão diplomática José Serra. O texto, intitulado “Temos de volta o Itamaraty!”, avaliava de forma francamente positiva os gestos inaugurais do novo chanceler – em particular, as notas oficiais 176 e 177, emitidas pelo Ministério de Relações Exteriores, que rebatiam, com frontalidade, as manifestações dos governos de Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua e Venezuela, bem como a posição do secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, acerca do processo político brasileiro.

O elogio à diplomacia do “vigor” e da “firmeza” – para valer-me de expressões encontrados no texto de Abdalla – apoia-se em analogia ousada: segundo o autor, a reação de Serra às supostas “ofensas” cometidas pelos países “bolivarianos” ao Brasil e sua democracia seria apenas comparável àquela assumida pelo Barão do Rio Branco, histórica figura do panteão diplomático brasileiro, quando lidou com a Bolívia, no início do século XX, por ocasião de um contencioso que envolvia cidadãos brasileiros no atual estado do Acre, ao norte do território pátrio.

O argumento segue. Abdalla alega que o fato de os representantes bolivarianos opinarem criticamente a respeito de processos pertinentes à organização política doméstica do Estado brasileiro seria, por si só, indicativo do “encolhimento” do país na América do Sul; que a integração regional com Estados “anticapitalistas” e “antiglobalistas” nos conduz ao irremediável atraso, o que estaria corroborado pelo baixo número de tratados de livre comércio assinados ao longo dos últimos anos; que, à medida que o Mercosul estagnou, emergiu uma pujante Aliança do Pacífico, conformada por economias de orientação liberal e comercialista, verdadeiro polo de dinamismo econômico na nossa região; e que não seria aconselhável ao Brasil estreitar laços com um vizinho que desrespeita direitos humanos e procedimentos democráticos, nomeadamente a Venezuela.

A cereja do bolo fica para o final. Ao dar remate à narrativa, Abdalla resgata uma manchete de folhetim do início do século passado que, em exortação à “diplomacia do vigor” do Barão do Rio Branco no Acre, exclamava: “Temos homem no Itamaraty!” Atento ao “viés de gênero” da formulação, Abdalla tenta anular um possível impacto negativo para o arrebatamento de corações e mentes, adaptando-a ao registro politicamente correto do século XXI e chegando, por caminhos sinuosos, ao título do artigo em tela de análise.

Por se tratar de documento que é representativo da ideologia que campeia no Brasil hodierno, e em especial no Itamaraty sob Serra, penso que faz por merecer uma réplica. Porém, antes de deter-me nos seus aspectos controversos, que não são poucos, cumpre um rápido recuo. Assinalo que o texto de Abdalla me fez recordar um clássico, lido em meus tempos de pós-graduação, do professor David Hackett Fischer, pelo que fico nostalgicamente grato ao diplomata. Publicado em 1970, o livro causou frisson entre os historiadores da época, dado que inventariava, de forma implacável, a enorme diversidade de falácias presentes na historiografia academicamente praticada nos Estados Unidos. Como se dizia, era um grande alívio folhear o índice remissivo da obra e não se ver citado…

Temo, porém, que o artigo de Igor Abdalla não resistiria ao “teste de Fischer”.

Ao agrupar e rotular de “bolivarianos” os países que fazem oposição ostensiva à maneira controversa como se deu o impedimento da presidente Dilma Rousseff, Abdalla comete a primeira de suas falácias, tomando a parte pelo todo. Como intérprete bem informado da realidade internacional que é, sabe que as manifestações diplomáticas de estranhamento e censura ao jogo político de Brasília não se limitaram aos andinos, tampouco aos governos de esquerda. Países de credenciais democráticas e humanistas irretocáveis, como Costa Rica e Uruguai, não se furtaram a verbalizar críticas ao Brasil nos meses que se seguiram à deposição. Outros países ao norte e ao sul, grandes e pequenos, de Estados Unidos a El Salvador, passando pela Federação Russa, continuam reticentes e, aparentemente, pouco inclinados a normalizar suas interações com o governo de Michel Temer. Por colocar todos os opositores na vala comum do “bolivarianismo”, o autor do artigo sonega uma parcela importante da verdade factual.

Ao hipostasiar o acessório, em detrimento do essencial, Abdalla comete a sua segunda falácia: sob pretexto principista (vide o elogio à excursão de Aloysio Nunes Ferreira a Caracas), faz vista grossa ao fato de que, ao não ser reconhecido pelos vizinhos como liderança regional, o Brasil descredencia-se a jogar o pôquer diplomático na mesa principal. Os atalhos cognitivos da política internacional costumam atribuir, ao longo dos anos de presidência Lula da Silva, o protagonismo sul-americano ao Brasil. Tal protagonismo esteve assentado, desde o primeiro instante, em uma estratégia depaymastering, consistente em o país de maior poderio econômico – o Brasil – arcar com os custos assimétricos da integração regional. Em alguma medida, foi o que a Alemanha Ocidental fez – e ainda faz – na Europa, após a queda do Muro de Berlim e a sua reunificação. Ora: se as relações de Brasília com quatro dos onze Estados soberanos sul-americanos estão momentaneamente envenenadas, qualquer pretensão de o Estado brasileiro posar de “cachorro grande” está, desde logo, em suspenso. Falta-lhe o reconhecimento continental.

De resto, há uma flagrante contradição na argumentação moral do artigo, o que não terá escapado aos comentadores mais atentos da política externa, tampouco aos diplomatas de outras nações sul-americanas: apesar de julgar ofensiva e imprópria a crítica de vizinhos a questões domésticas brasileiras, o chanceler Serra e seus apóstolos jamais hesitam em conceder pechas desairosas e em denunciar fatos de regimes políticos alheios. “Faça o que eu digo, não o que eu faço”, em bom português. Lidar com essa inconsistência interna ao discurso é um problema, cuja solução resvala, no texto de Abdalla, em construções que se coadunam com o receituário do (sub)imperialismo. A apologia à diplomacia do “vigor” e da “firmeza” não é gratuita nem fortuita – hão de pensar, com boas razões, os nossos hermanos.

A alegada correlação, apresentada por Abdalla em seu artigo como causalidade, entre o pequeno número de acordos comerciais celebrados durante os governos de Lula da Silva e Rousseff, por um lado, e a estagnação econômica nacional, por outro, não passa de meia-verdade. Ainda que se conceda que a política comercial externa do Brasil tenha sido problemática, porque excessivamente dependente de gêneros primários, além de pouco arrojada e geoeconomicamente desatenta, não é pela contabilidade de documentos assinados que se chega a conclusões definitivas sobre o tema. Durante as gestões de Lula da Silva – o raciocínio não se aplica aos anos sob Rousseff – houve uma diversificação das parcerias comerciais e da pauta de produtos, aliada ao considerável aumento do volume e do valor transacionado internacionalmente, a despeito da não formalização de laços por instrumentos de livre comércio. Ao propor uma correlação sabidamente espúria, Abdalla incorre em mais uma falácia.

Outra crítica extemporânea – e, por isso mesmo, falaciosa – diz respeito à constituição da Aliança do Pacífico. Afirmar que a emergência do grupamento, que inclui México, Peru, Chile e Colômbia, se deu no vácuo deixado pelo Mercosul na região é falsear um longo e denso processo histórico. Tomemos, por exemplo, o caso chileno: desde 1888, quando a dita “Rota da Polinésia” incluiu a ilha de Páscua no itinerário, o país vem direcionando-se para o Pacífico. Como nação territorialmente exígua, Santiago voltou-se para fora e, auxiliada pela geografia, construiu relações diplomáticas e comerciais com a Ásia já no século XIX. Em maior ou menor medida, a narrativa também aplica-se ao histórico peruano, do que dão testemunho as várias ondas migratórias de japoneses para o país, e vice-versa. Foi o presidente Alan García, aliás, quem, cinco anos atrás, na cidade de Lima, lançou a iniciativa, numa bem-sucedida operação de region-branding, responsável por arregimentar economias cujas práticas individuais convergiam, desde há muito.

O anacronismo embala o texto de Abdalla. A comparação entre a conquista do solo acreano pelo Brasil, na primeira década do século XX, e o rechaço ríspido aos pitacos dos andinos, em 2016, sem as devidas escalas e ressalvas, gera um dos silogismos mais criativos e inesperados de todos os tempos: se Caracas é o Acre, logo Serra é (ou age como) o Barão do Rio Branco! Sim, senhoras e senhores, vivemos para ver essa falácia, que está desenhada do segundo ao quinto parágrafos do artigo. O que conectaria as personagens, além do vínculo funcional com o Ministério de Relações Exteriores, seria a assertividade de suas respostas a situações de crise, sob o álibi usual – a intransigente defesa do “interesse nacional”. A pobreza da analogia fala por si. Aproximar o lendário patrono do Itamaraty – proverbial Casa de Rio Branco – do chanceler de turno, é, para dizer o mínimo e poupar adjetivos e advérbios, um absurdo – seja lógico, seja histórico, seja normativo, seja político.

Para finalizar a breve réplica, não posso deixar de notar certo sexismo latente às posições de Abdalla. Embora tenha evitado o registro machista no título do seu texto, postura que julgo acertada e prudente, ficou-me a impressão de que o autor operou cautelosamente apenas no nível superficial do palavreado, descuidando-se dos significados profundos que se infiltraram na narrativa. Explico-me: ao identificar positivamente “vigor” e “firmeza” na diplomacia de José Serra, Abdalla exalta as virtudes “másculas” dos Estados nas relações internacionais, mesmo quando em detrimento de outros traços comportamentais tradicionalmente associados à política externa brasileira. Nesse diapasão, a cultura de “falar grosso” e “dar tapa na mesa”, sobretudo no trato com os parceiros regionais, torna-se índice de potência. Traços distintos do vasto repertório diplomático brasileiro, tais como a vocação para a cooperação, o gosto pela concórdia, a cordialidade militante, as saídas negociadas por vias multilaterais, sequer são apreciados na peça.

Ao fim e ao cabo, suspeito de que Igor Abdalla tenha produzido, sob a forma de um eloquente e bem redigido manifesto, um espantalho da trajetória do Barão de Rio Branco e de suas ideias, o qual pode até servir a propósitos político-partidários conjunturais e imediatos, insuflando os adeptos da doutrina serrista, mas jamais subsidiará investigações acadêmicas e debates intelectuais de maior fôlego e pretensão.

Publicado originalmente no portal do jornal O Estado de São Paulo.

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