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Conhecimento, ignorância e preconceito na política brasileira

Já se tornou lugar-comum afirmar que o Brasil recente vem passando por um processo de intensa polarização ideológica. Provavelmente, esse juízo é superestimado, pois distorcido pelo impacto subjetivo que nos causa o tempo presente. Se, de um lado, temos que ter cautela para não produzir raciocínios historicamente míopes, por outro lado, é preciso reconhecer que, ao menos em alguns espaços, como na universidade, a radicalização política tornou-se senão mais intensa, certamente mais visível.


Dito isso, cumpre notar que tal visibilidade (a sugerir a alguns que o país anda mais “politizado”) não significa, forçosamente, mais clareza e coerência no uso e na articulação das ideias. Há muito a ciência política assentou a ideia que nem sempre mais participação política resulta necessariamente em debate minimamente ilustrado e racional. E, para aqueles que dedicam-se ao exame científico da realidade, é sempre desconfortável observar o modo inadequado das pessoas fazerem uso de certos conceitos.


Gosto de brincar com meus alunos que, por exemplo, todo cientista político morre de enfarto fulminante ao ouvir que o ex-presidente Lula, ou o PT são comunistas. Assim como é acometido por forte síncope ao se ajuizar que Jair Bolsonaro é liberal. Não se trata simplesmente de preciosismo terminológico. Os termos comunismo e liberalismo, bem como outros conceitos da ciência política, são dotados de significado e foram constituídos historicamente por um longo e intrincado processo, marcado por disputas, debates e reflexões. Utilizá-los espontânea e acriticamente nos leva quase que inevitavelmente a equívocos e precipitações, que só a “paciência do conceito” (para utilizar livremente de

expressão hegeliana) pode evitar.


Liberalismo, por exemplo: termo hoje muito mal-empregado, à esquerda e à direita. Para o os primeiros é verdadeiro xingamento. Quando alguém, desse campo político, usa o termo para caracterizar seu interlocutor ou um determinado autor, é simplesmente para desqualificá-lo. Via de regra, deduz-se que liberal seja indivíduo contrário a qualquer forma de direitos e progresso social, um reacionário, ou, ao menos, um conservador. Alguém, em suma, de “direita”.


Curiosamente, muito membros de nossa esquerda esquecem-se que, de acordo com o próprio Marx, se, por um lado, é verdade que o liberalismo representou os interesses particulares da classe dominante, por outro lado, é igualmente necessário reconhecer que ele foi uma visão de mundo revolucionária. Quando essa tradição surgiu no século XVII, ser liberal significava contestar qualquer forma de despotismo, de poder ilimitado e arbitrário e, por conseguinte, ser defensor das liberdade individuais, algo não apenas incomum, do ponto de vista dos costumes, como radicalmente inovador em relação ao sistema político.


Assim, ainda que pudesse estar ligado a certas expectativas particularistas, fato é que o liberalismo criou um horizonte de expectativas que pressionou o mundo ocidental pela universalização e efetivação dessas liberdades. É precisamente essa ambiguidade e essa riqueza conceitual e histórica que se perde totalmente no uso mecânico dessas categorias.


Essa simplificação se agrava se considerarmos que o liberalismo, originalmente formado nos países do Atlântico Norte, teve que se aclimatar aos trópicos. Se lá, as ideias liberais estavam associadas a um contexto de formação de uma sociedade de indivíduos que se viam tolhidos pelos privilégios da nobreza, do clero e do Estado, e que exigiam, conseguintemente, liberdade de comércio, de associação, de pensamento, etc., aqui, as condições sociais eram radicalmente diferentes. Sem exaurir o assunto, basta lembrar que, no século XVII, período de surgimento da tradição liberal, o Brasil era fundamentalmente uma grande fazenda, organizada a serviço dos interesses da metrópole e das oligarquias locais, e mantida mediante o labor dos escravos, como continuaria a ser, em linhas gerais, até o século XIX.


Mas, retomando o argumento, o uso pouco reflexivo das categorias políticas não é privilégio de determinado lado do espectro político. A nossa “direita” também se esmera cotidianamente em erros e tolices conceituais e históricas.


Vejamos o caso emblemático de Jair Bolsonaro, que em recente visita aos Estados Unidos da América, disse ao jornal Folha de São Paulo que era “um liberal”, dado que não optara por visitar a Coréia do Norte. Que primor de silogismo!


Sem descurar do uso eleitoreiro desses slogans, fato é que boa parte dos nossos discentes, a despeito da fragilidade desses discursos, acabam assumindo-os como verdadeiros. Entretanto, uma análise da história estadunidense ou dos discursos políticos de fundação dessa nação, como aqueles reunidos no célebre Federalist papers, já evidenciariam que Bolsonaro pode ser muitas coisas, mas certamente não é liberal. Não é preciso muita inteligência para constatar a total incompatibilidade entre negar reiteradamente o princípio de que todos são iguais perante à lei, ou entre não lutar pela máxima liberdade individual (religiosa, sexual, etc.) e ser liberal. A rigor, Bolsonaro não é nem propriamente um conservador – pois esse não é avesso a qualquer mudança social, mas apenas receoso quando aos efeitos deletérios produzidos por sua intensa aceleração.


Nosso deputado é, em suma, um político reacionário, entendendo esse termo não sob prisma ideológico e acusatório, mas segundo sua definição histórica e filosófica, isto é, como alguém que anseia por um retorno a certas práticas pré-modernas, como a violação sistemática de garantias fundamentais mediante a tortura e o estupro, ambas elogiadas pelo parlamentar por diversas vezes. Ao lado de um liberal do século XVIII, como Cesare Beccaria, ou do século XIX, como John Stuart Mill, Bolsonaro parece realmente ser um anacronismo político.


Para concluir, percebe-se o imbróglio em que nos metemos quando falamos sobre e da política sem qualquer conhecimento mínimo a respeito da história que a constitui. Para nossa “direita”, é preciso afirmar os princípios do liberalismo, mas, ao mesmo tempo, considera-se, de modo estafúrdio e contraditório, que “direitos humanos” só valem para “humanos direitos”. Para nossa esquerda, por outro lado, defender o liberalismo é defender o retrocesso e interesses privados. Não vêem eles, contudo, que nosso país é ainda tão atrasado (a despeito de conter, paradoxalmente, elementos da mais avançada modernidade) que realizar minimamente o liberalismo por aqui seria avançar muito em relação à consolidação da cidadania. Ignoram que ser liberal, no país do samba e do futebol, significa ainda, em pleno século XXI, ser de "esquerda".



*Texto originalmente publicado no Jornal da Adufla, Lavras, 01 jul. 2018.