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Memória de Marcelo Dolabela



“Marcelo Dolabela?! Tenho o livro dele, ABZ do rock brasileiro, sempre o consulto. O cara é uma referência cultural! Pena que não o conheço pessoalmente, embora já o tenha visto algumas vezes nos ambientes boêmios da cidade”.


Foi a resposta que dei, em 2015, ao professor de Ciências Políticas da UFMG Juarez Guimarães, que queria que o poeta, artista e músico Marcelo Dolabela desse uma palestra sobre o movimento modernista aos integrantes do Cerbras (Centro de Estudos Republicanos Brasileiros) e aos alunos da Fafich. “Ele está reticente”, comentou Juarez, “quer conversar conosco antes de marcarmos. Você poderia encontrá-lo, representando o Cerbras, saber a razão da dúvida e tentar convencê-lo. E seria uma oportunidade para conhecê-lo pessoalmente”.


Marcelo Dolabela marcou nosso encontro no Edifício Maletta. Conversa regada a cerveja. Primeiro na Cantina do Lucas, depois num dos bares mais ao fundo: “é mais barato lá”, justificou. As razões de sua hesitação: “como é que vai ser isso lá, hein? Vocês são todos doutores, professores, pesquisadores da área de política e ciências sociais…”. Fiquei surpreso. Um intelectual, um artista, do quilate de Marcelo Dolabela, graduado e pós-graduado em Letras, hesitando em falar para acadêmicos da ciência política! Disse a ele que, na minha opinião, a Universidade era crucial para a ciência e a cultura, e uma ótima oportunidade de crescimento intelectual para as pessoas, mas que não detinha, por isso, o monopólio da inteligência ou da percepção crítica e sensível das coisas da vida. Não sei se tais argumentos o tocaram, ou se eu ter levado meu exemplar de ABZ do rock brasileiro para ele autografar quebrou o gelo, ou ambas as coisas, o fato é que ele rapidamente concordou em dar a palestra.


Decidida a questão, missão cumprida, o papo fluiu mais relaxado ainda. Folheamos o livro dele, e, numa das páginas, que falava de uma banda punk, eu escrevera a caneta, há tempos: “essa banda é uma merda!”. Rimos demais. Foi uma ótima conversa, sobre música, rock’n’roll, política, cultura, literatura, etc, enquanto várias pessoas passavam e o cumprimentavam, conversavam um pouco...ele parecia estar em casa, ali no Maletta!


No dia da palestra, na mesa, ao lado dele, notei que o papel com as anotações a mão que segurava tremia levemente. Estava um pouco nervoso. Só no início, pois certamente logo percebeu que tinha nos cativado, e aos alunos também, com sua apresentação. Sua fala salientou o impacto recorrente, perceptível até hoje, do modernismo na cultura brasileira, com suas pontes entre o erudito e o popular, o nacional e o internacional, o passado e o futuro e com sua mensagem de que um caminho brasileiro para uma sociedade democrática só pode ser trilhado em cima de nossa história própria e original, sem travar a emotividade e exuberância típica das relações interpessoais.


Uma palestra memorável – mas que ficou só na memória mesmo, desafortunadamente. Marcelo não apresentou um texto escrito, e sua apresentação não foi gravada ou registrada. Pedimos a ele, depois, que nos mandasse o material, para colocarmos no site do Cerbras, mas não foi possível.


Ficou em nós a lembrança de uma interpretação do impacto do modernismo no Brasil, e, especialmente, da força de uma inteligência viva, crítica, inquieta, encantadora.


Salve Marcelo Dolabela!! Um brinde a você!!




Foto: Lidyane Ponciano, 2012.

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